O interesse dos estudantes pela vida pública costuma parecer distante, mas iniciativas recentes mostram que esse cenário começa a mudar. De visitas guiadas ao Supremo Tribunal Federal a novas diretrizes do Ministério da Educação, projetos de educação cidadã vêm traduzindo conceitos constitucionais para a linguagem dos jovens.
Ao colocar Constitución, voto e direitos humanos no centro da aula, essas ações tentam conter a apatia política apontada por pesquisas e reforçam habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular. A seguir, veja como cada programa atua, quais resultados já aparecem em sala e por que a pauta ganhou lugar cativo na agenda educacional.
Onde a educação cidadã entra na rotina escolar
Dados da World Values Survey revelam que só 40% dos brasileiros demonstram grande interesse por política, índice muito inferior ao de países como a Alemanha. Entre jovens de 16 a 34 anos, levantamento do Ipec identificou que um em cada cinco sequer compreende o conceito de democracia. Esses números escancaram o desafio de transformar conhecimento cívico em experiência concreta.
A própria BNCC prevê que competências socioemocionais e valores democráticos atravessem toda a educação básica, mas a execução ainda varia muito de escola para escola. Foi nesse vácuo que surgiram iniciativas como o STF na Escola e o recém-criado Programa Educação para a Cidadania e para a Sustentabilidade, do MEC. Ambas partem da ideia de que o currículo deve dialogar diretamente com o cotidiano e, sobretudo, dar sentido prático a temas como voto universal, ética e participação social.
STF na Escola leva a Constituição para dentro da sala de aula
Coordenado pela juíza ouvidora Flávia Martins de Carvalho, o STF na Escola já percorreu 38 escolas em 15 estados e no Distrito Federal, alcançando mais de três mil estudantes do ensino fundamental e médio. O formato é simples: magistrados visitam instituições públicas e privadas, promovem dinâmicas sobre democracia, simulam eleições e explicam o papel da Suprema Corte.
Durante uma dessas atividades, Flávia testou o conhecimento da turma ao afirmar que o Estatuto da Criança e do Adolescente proibia copos pretos em sala. A pegadinha, criada para mostrar a importância de conhecer a lei, surpreendeu quando um aluno negro contestou a informação e apontou racismo, antes mesmo de a juíza revelar a brincadeira. O episódio mostrou que, quando provocados, os jovens tendem a defender direitos com firmeza.
Para Denise De Felice, diretora administrativo-pedagógica da ONE School, em Brasília, levar alunos do 3º ano aos corredores do Supremo foi decisivo para que conceitos saíssem do papel. A visita ajudou a despertar senso de pertencimento e respeito às instituições, reforçando objetivos da BNCC sem recorrer a aulas expositivas tradicionais.
Programa do MEC integra BNCC e sustentabilidade
Lançado em setembro pela Portaria 642/2025, o Programa Educação para a Cidadania e para a Sustentabilidade pretende sistematizar práticas interdisciplinares em todas as etapas da educação básica. A adesão de estados e municípios é voluntária, mas a pasta espera que a iniciativa se torne referência nacional em cultura democrática.
Além de valores políticos, o texto enfatiza a conexão entre direitos humanos e preservação ambiental, aproximando dois temas recorrentes no currículo. A medida complementa debates sobre políticas de ensino de alcance federal, como a recente lei que instituiu o Sistema Nacional de Educação, voltada a coordenar ações entre União, estados e municípios.
Especialistas veem o programa como um passo importante para unir teoria e prática. Ele também dialoga com mudanças avaliativas, já que o novo Ideb pretende repensar indicadores de qualidade e a transição do Saeb em 2025 exigirá novas estratégias pedagógicas.
Desafios para ampliar o engajamento estudantil
Embora os programas ganhem força, a falta de confiança nas instituições ainda pesa. O mesmo estudo da World Values Survey indica que apenas 16,17% dos brasileiros confiam no Congresso e 13,76% nos partidos. Entre os mais jovens, 92% dizem confiar pouco ou nada nessas organizações e 57% evitam discutir política online por medo de cancelamento.
Flávia Martins acredita que a chave está em criar “espaços de escuta”, onde crianças e adolescentes percebam que justiça, ética e democracia já fazem parte do seu dia a dia. Ela defende que o papel da escola não é ensinar o que é certo ou errado, mas provocar reflexões sobre situações que os próprios alunos vivenciam. Essa postura dialoga com pesquisas do MEC que analisam condições de trabalho docente e mostram impacto direto no aprendizado, caso, por exemplo, da formação em Matemática.
No Uni10, acompanhamos de perto essa tendência de aproximar a juventude da política por meio de metodologias ativas. Quando o estudante se vê protagonista, ele percebe que tomar parte nos rumos do país é tão natural quanto participar do grêmio ou de um jogo de futebol na quadra.
Vale a pena participar?
A julgar pelos primeiros resultados, envolver alunos em iniciativas como STF na Escola e o novo programa do MEC amplia o repertório crítico e fortalece vínculos com a democracia. Ao transformar conteúdos abstratos em experiências práticas, a escola não apenas cumpre diretrizes da BNCC, mas também responde à urgência de formar cidadãos capazes de zelar pelas próprias instituições.
