O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) vai mudar. Após quase duas décadas, o indicador criado em 2007 entra na reta final de um ciclo e deve ganhar novos critérios para medir qualidade e equidade nas redes de ensino.

À frente dessa revisão está Kátia Schweickardt, secretária nacional de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). Em entrevista, ela comenta como as futuras regras pretendem reduzir discrepâncias históricas, explica a articulação com o Sistema Nacional de Educação (SNE) e descreve ações como o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

Por que repensar o Ideb agora

Segundo Kátia Schweickardt, a legislação determina que o mecanismo seja atualizado. A principal crítica recai sobre a “régua única” que, até aqui, ignora diferenças socioeconômicas, regionais e étnico-raciais. “Quando o índice sobe, normalmente melhora apenas para quem já parte de um ponto privilegiado”, frisa a gestora.

Nesse sentido, o novo Ideb deve incorporar parâmetros de combate à desigualdade. A ideia é destacar resultados dos estudantes que, historicamente, apresentam menor desempenho — sobretudo crianças pretas, pardas, indígenas e quilombolas, além de moradores do Norte e do Nordeste. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) trabalha com psicometristas para chegar a uma fórmula que reflita esses desafios.

Avaliações em larga escala sob nova perspectiva

O Saeb, exame que forma a base do Ideb, também passa por transformação. A partir de 2025, a transição elevará o nível de complexidade e exigirá práticas pedagógicas mais refinadas, como indica a análise da matéria “Transição do Saeb em 2025 eleva o nível de complexidade”. Kátia ressalta que, além da prova bienal, ganham força as avaliações formativas, aplicadas em sala de aula e capazes de orientar intervenções imediatas.

A secretária destaca ainda a necessidade de melhorar a coleta de dados no Censo Escolar para saber, por exemplo, onde estão as crianças pretas e se elas contam com professores qualificados. “Sem esse retrato fiel, políticas de equidade viram promessa”, afirma.

Regime de colaboração como base das políticas públicas

De acordo com a dirigente, o SNE surge para costurar responsabilidades entre União, estados e municípios. Caso uma prefeitura não consiga oferecer vagas na pré-escola, o estado e o governo federal terão de apoiar o atendimento. “É uma governança que evita zonas de sombra e garante o direito de aprendizagem, independentemente do CEP”, explica.

O modelo já inspira o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, tornado lei em novembro. Cada território elaborou seu próprio plano, estipulou metas e definiu formações docentes. O Índice Criança Alfabetizada, criado pelo Inep, serve de bússola ao apontar a pontuação 743 como padrão desejável no Saeb do 2º ano.

Formação de professores e o desafio da matemática

Outro gargalo citado pela secretária é o ensino de matemática nos anos iniciais. Escuta realizada com mais de 57 mil docentes revelou insegurança metodológica, principalmente entre professores generalistas formados em pedagogia. Para enfrentar essa limitação, o MEC dialoga com licenciaturas a fim de ampliar carga horária dedicada à didática da disciplina e aproximar conteúdos da realidade infantil.

Os números justificam a urgência: alunos concluem o 3º ano do ensino médio com média nacional de 3,4 em matemática, numa escala de 0 a 10. “Se o professor não domina conceitos, não cria conexões e a alfabetização matemática fica precária. Isso reverbera até a juventude”, analisa Kátia.

Vale a pena assistir?

Observar a reformulação do novo Ideb, em sinergia com o Saeb e o SNE, significa acompanhar uma tentativa inédita de o país medir aprendizagem sem fechar os olhos para desigualdades profundas. Para o leitor do Uni10, atento a concursos, cursos gratuitos e políticas públicas que afetam carreiras na educação, seguir cada etapa desse processo pode ser decisivo para entender futuras demandas de formação e novas métricas de desempenho escolar.

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