Cerca de 57 mil docentes de escolas públicas participaram da Escuta Nacional de Professores e Professoras que Ensinam Matemática, conduzida pelo Ministério da Educação entre março e abril deste ano. Os dados preliminares mostram um cenário de forte preocupação: quatro em cada dez entrevistados afirmam que a infraestrutura precária das escolas prejudica diretamente a aprendizagem dos alunos.
Além da estrutura, o levantamento revela que mais da metade dos profissionais entra em sala de aula sentindo carência na própria formação. Esse retrato ajuda a explicar por que 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingem o nível mínimo de proficiência em Matemática, segundo o Pisa 2022.
Retrato de quem ensina Matemática no país
Dos 57.080 participantes, 28.024 lecionam nos anos iniciais do ensino fundamental, 21.517 nos anos finais e 7.093 no ensino médio; outros 446 atuam na educação profissional e tecnológica. A iniciativa chegou a 75% dos municípios brasileiros, envolvendo mais de 24 mil escolas.
Para Tereza Farias, coordenadora-geral de Ensino Fundamental do MEC, parte da insegurança relatada pelos professores se explica por lacunas deixadas pela formação inicial. Entre 52% e 55% dos respondentes reconhecem não ter recebido base suficiente na graduação para planejar estratégias pedagógicas mais consistentes.
Condições de trabalho e seu efeito na aprendizagem
Infraestrutura inadequada foi apontada como obstáculo por aproximadamente 40% dos docentes. O percentual reflete problemas que vão de salas superlotadas a falta de materiais específicos, dificultando a realização de atividades práticas ou o uso de jogos educativos.
A pesquisa também identificou que 80% dos entrevistados desejam formações focadas em oficinas com experimentação de aula, preferência que confirma a busca por soluções práticas para desafios cotidianos. Outros 70% pedem cursos de média e longa duração, sinalizando disposição para investir tempo em desenvolvimento profissional consistente.
Tendências didáticas: da exposição aos jogos
A maioria dos professores diz priorizar aulas expositivas, sobretudo no ensino médio, onde nove em cada dez relatam recorrer com frequência a esse formato. Por outro lado, recursos lúdicos são mais comuns nos anos iniciais: metade dos docentes que ensina crianças aplica jogos matemáticos em grande parte das aulas, percentual que cai para 30% nos anos finais e no ensino médio.
Imagem: cauediniz
A tentativa de aproximar a disciplina do cotidiano surge como prática quase unânime: oito em cada dez entrevistados relatam usar exemplos do dia a dia em mais da metade das aulas, estratégia vista como caminho para reduzir a rejeição dos estudantes.
Compromisso Nacional Toda Matemática e desdobramentos
A Escuta Nacional serve de subsídio para o programa Compromisso Nacional Toda Matemática, lançado pelo MEC em outubro. A iniciativa busca articular União, estados e municípios no enfrentamento dos baixos índices de desempenho na disciplina e pretende revisar políticas de formação docente.
Especialistas presentes no seminário Gente que Soma, em São Paulo, defenderam que esse esforço precisa dialogar com metas de avaliação mais amplas. Propostas como o Novo Ideb e a transição do Saeb prevista para 2025, que eleva a complexidade das avaliações, foram lembradas como peças-chave para dar coerência ao sistema.
Vale a pena assistir aos próximos passos?
Para o portal Uni10, acompanhar as próximas etapas desse debate é fundamental: os resultados da pesquisa moldarão políticas que podem redefinir tanto a formação quanto as condições de trabalho dos docentes de Matemática no Brasil.
