Depois de três décadas de espera, o Sistema Nacional de Educação (SNE) finalmente foi regulamentado no Brasil. A nova lei, aprovada em outubro, busca organizar um cenário historicamente fragmentado, em que União, estados e municípios atuam sem coordenação plena.

    Neste panorama, o SNE surge como engrenagem de governança capaz de alinhar metas, distribuir recursos e padronizar avaliações, ao mesmo tempo em que respeita a diversidade regional. A seguir, veja os principais pontos da norma que já ocupa o centro do debate entre gestores, professores e especialistas.

    Como o Sistema Nacional de Educação saiu do papel

    O SNE era previsto na Constituição de 1988 e ganhou status de meta no Plano Nacional de Educação de 2014, com prazo fixado para 2016. A meta não foi cumprida, mas o tema permaneceu vivo até que, em 2023, o Congresso aprovou o texto que lhe dá forma legal. A demora, segundo a diretora-executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, aprofundou disparidades regionais e sobreposições de responsabilidade entre entes federativos.

    Com a sanção presidencial, a lei estabelece diretrizes para articular oferta, financiamento e acompanhamento da educação básica em todo o território. A expectativa é que, no curto prazo, surjam avanços institucionais — instalação de comissões, integração de bases de dados e definição de metas conjuntas. Efeitos diretos na aprendizagem, contudo, devem aparecer apenas no médio e longo prazos.

    Nova engrenagem de governança: comissões tripartite e bipartite

    O principal instrumento de coordenação criado pela lei é a Comissão Intergestores Tripartite (Cite), presidida pelo ministro da Educação e composta por seis representantes da União, seis dos estados e seis dos municípios. Em cada unidade federativa haverá, ainda, a Comissão Intergestores Bipartite (Cibe), com seis membros do governo estadual e seis das redes municipais.

    Esses fóruns terão poder para pactuar políticas, metas e responsabilidades. “Na prática, decisões antes tomadas isoladamente passarão a ser negociadas em bloco, criando ambiente de cooperação e reduzindo lacunas na implementação”, explica Katia Smole. Para o presidente do Conselho Nacional de Educação, Cesar Callegari, o modelo lembra a estrutura do SUS, mas voltada ao ensino.

    Avaliação integrada e infraestrutura de dados

    Outro avanço previsto pelo Sistema Nacional de Educação é o regime articulado de avaliações. A ideia é estabelecer parâmetros nacionais comuns — como a definição de criança alfabetizada na escala Saeb — e, simultaneamente, permitir que estados e municípios utilizem instrumentos complementares. Esse desenho conversa com o debate que discute como o Novo Ideb propõe enfrentar desigualdade e repensar o papel dos exames oficiais.

    A lei também cria a Infraestrutura Nacional de Dados da Educação, que reunirá informações por estudante. Hoje, registros ficam dispersos e, quando o aluno muda de escola, parte de sua trajetória se perde. Com o número único, professores poderão acessar histórico de aprendizagem e definir estratégias individualizadas. A mudança dialoga com a preocupação sobre a transição do Saeb em 2025, que exigirá uso mais sofisticado de evidências.

    Formação docente, financiamento e respeito às especificidades

    A norma dedica seção à carreira do magistério, prevendo formação adequada e plano de carreira estruturado. Callegari ressalta que um terço dos municípios ainda não cumpre o piso salarial. Para ele, não há “bala de prata” na educação, mas sem professores qualificados e valorizados, resultados continuarão aquém do esperado. O tema se conecta a estudos que mostram como as condições de trabalho e formação impactam as aulas e, portanto, o desempenho dos alunos.

    O SNE reserva capítulo para educação indígena e quilombola, determinando consulta obrigatória a essas comunidades na elaboração de políticas. Para a pesquisadora Shirley Pimentel, da Conaq, a vitória é garantir voz a grupos que costumam receber projetos sem diálogo com suas realidades territoriais e culturais. A lei também facilita a organização de redes de ensino que ultrapassam limites administrativos, como ocorre com o povo Kalunga, presente em Goiás e Tocantins.

    Experiências colaborativas inspiram próximos passos

    Arranjos regionais já existentes oferecem pistas de como a articulação proposta pelo Sistema Nacional de Educação pode funcionar. No noroeste paulista, 91 municípios integram o Arranjo de Desenvolvimento da Educação, criado em 2009, voltado à formação continuada de professores. Segundo Marcelo Batista, secretário de Educação de Votuporanga, o grupo ganhou força por ser financeiramente viável e acolher gestores recém-empossados.

    O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da região subiu de forma consistente, e cidades como Floreal alcançaram média 9,3 em 2023. Essa experiência reforça a tese de que cooperação federativa e investimento na formação docente — pontos centrais do SNE — podem gerar ganhos concretos de aprendizagem.

    Vale a pena acompanhar de perto a implementação?

    Para quem atua em escolas, redes ou pesquisa educacional, acompanhar a execução do Sistema Nacional de Educação será essencial. A lei cria bases para reduzir disparidades e tornar políticas mais eficientes, mas seus resultados dependerão de compromisso político, financiamento regular e participação ativa dos educadores. O portal Uni10 seguirá monitorando cada etapa desse processo, de olho nos impactos que poderão transformar, de fato, as salas de aula brasileiras.

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